domingo, 12 de fevereiro de 2023

DÓI-ME NO PEITO



Dói-me no peito

essa dor tamanha

da indiferença,

do silêncio

 

Dói-me saber

que arrancaste de mim

o que permanecia segredo

e para quê?

 

Dói-me ler

o que declaras a outrem

e interpretar a mim

tua não-resposta.

 

Dói-me

e de tanto doer

já quase não sinto,

já quase não morro.

 

© Gracinda Ferreira


 

NA FLUIDEZ DOS DIAS



Na fluidez dos dias, simbolizo o desejo

de concretizar este amor que, em sonhos, idealizo,

disperso na dor da tua ausência,

pela extensa harmonia da vida.

 

Nesse mundo onírico em que habitas, a alma respira,

pois contigo cada instante é eternidade

e se abre como uma janela

para a poesia, embarcadouro da vida.

 

Me transbordo nesses dias vazios,

sentindo o sabor da tristeza na minha boca,

sigo sozinha nos caminhos dos sonhos,

perseguindo a lembrança de quando comecei a gostar de ti.

 

© Gracinda Ferreira


 

OUÇO ASSOBIAR O VENTO



Ouço assobiar o vento

sua cantilena entristecida,

tudo flui num momento fugaz

sem surpresas, sem sustos, em ausências ...

 

Olho em torno e a natureza grita

teu nome delineado em brisa

de gotas frias em minha pele quente,

doce bálsamo de esperança em minha vida ...

 

De um azul tristonho o céu me vê

estender meus olhos à tua procura

para além das nuvens em arabescos

por onde andas tão distante de mim...

 

E degredada sigo na fluidez do momento,

a buscar-te os beijos e os ternos abraços

onde todos os meus sonhos se ancoram

onde, finalmente, adormeço ...

 

© Gracinda Ferreira


 

A CHUVA DE OUTONO



A chuva de outono veio refrescar o dia

e trouxe consigo as lágrimas necessárias

para aliviar a minha dor.

 

Lentamente, a noite vai se fazendo úmida e fria,

enquanto meus olhos fitam o nada

procurando uma distância conhecida

na curva estreita das lembranças tuas.

 

Levaste embora teu sorriso que me sacia,

ao fugires por entre os pingos no chão,

deixando apenas o gosto amargo

da tristeza em minha boca.

 

© Gracinda Ferreira


 

NUA DE FRENTE À RUA



não te alcanço de forma alguma,

não te atinjo de nenhuma maneira,

és refratário a mim,

não me vês, não me respondes,

não me sabes perto ou longe,

nem me sentes viva ou morta,

aqui, acolá, à tua porta

não me percebes, não me queres,

não me sentes nem desejas,

nua de frente à rua

toda tua, nem me pressentes...

 

© Gracinda Ferreira


 

TE AMAR



Te amar é me deixar tocar por ti

até não ser mais eu

mas sermos nós

em nós de afeto e desejos.

 

Te amar é sermos dois em um só nó,

enlaçados nas voltas caprichosas do destino,

nó atado pelos atalhos dos caminhos.

 

© Gracinda Ferreira


 

AH, TU!



Ah! tu, que naquela noite imaginada,

me dedilhaste o corpo e me fizeste arrepiar,

despertando desejos de antigos devaneios,

sonhos que sonho só

na solidão de todas as madrugadas...

 

Ah! tu, que depositaste tuas mãos em mim

e em longos passeios atrevidos me tocaste inteira,

que me cobriste de beijos, de carícias,

que me apertaste nos teus abraços,

que gemeste de prazer nos meus ouvidos...

 

Ah! tu, que marcaste os meus braços com teus dentes,

ao expor minha nua anatomia inteira,

explorando meus segredos, me afagando a pele,

com tua expedição abrindo todos os meus caminhos,

entre meus montes e vales, mares e desertos...

 

Ah! tu, que em meus delírios me fitaste com olhos ofuscantes,

que me giraste sobre o teu corpo e me aninhaste,

me fazendo plena de prazer, quando me deixei estar assim

entre os teus braços, sentindo palpitar o teu coração,

remexendo a lava adormecida dos meus desejos...

 

Ah! tu, que fizeste explodir em mim a mulher que sou,

a amante ardente que em gestos delicados

te sugou a pele, a boca, te lavou os poros,

com minha língua quente, sedenta de ti,

oferecendo-te prazer ao explorar todos os teus recantos....

 

Ah! tu, que me procuraste a boca, mordeste os meus lábios,

brincaste tua língua na minha em tresloucados beijos,

me deixaste acariciar tua nuca e nos teus arrepios

os meus se misturarem, encostar meu peito ao teu,

sentindo nossos corações acertarem seus compassos...

 

Ah! tu, que entrelaçaste tua mão suada à minha,

que me fizeste queimar no teu fogo,

que deixaste teu cheiro em minha pele,

que pesaste sobre mim como uma cicatriz de prazer,

que me desbravaste por dentro, senhor de todo o meu ser...

 

Ah! tu, que me apareceste na vaga impossibilidade do mundo,

que me sacudiste o corpo, serpenteando sobre ele,

que me balançaste a alma, que me fizeste gritar e gemer de gozo,

que me afagaste ternamente ao final do nosso ato de amor,

que me despertaste plena de mim sempre em ti.

 

© Gracinda Ferreira