terça-feira, 15 de novembro de 2022

UM POUCO DE LEMBRANÇA

 


    Hoje, no momento da travessia de uma via muito movimentada, ao chegar ao outro lado, percebi que não havia lugar para colocar o pé, pois, à minha frente, desenhava-se um lindo jardim onde deveria, em princípio, haver uma calçada para eu estar “a salvo”. O embelezamento destinado, pelo morador, ao espaço me chamou a atenção, pois decorria de um gesto de ocupação que ultrapassava os muros da casa e se estendia para fora, abrangendo o local destinado ao pedestre – intervenção do privado no público. Fui empurrada para o meio da rua, segregada pelo espaço que me dizia que não poderia estar ali nem chegar perto – muro e jardim me puseram para fora.
    Pensei, então, em como as coisas da cidade, e nela, mudaram, pois, olhando para um passado não tão distante, as recordações desses espaços públicos me remeteram a um uso significativamente diferente dos que hoje em dia se dispersam pela urbe. A rua da infância, aquela que permaneceu na minha lembrança e na de tantas pessoas, não é a que hoje se mostra ressignificada em asfalto, iluminação, sinalização... Ela era de terra batida, cheia de buracos que empoçavam a água da chuva, para a alegria e felicidade de toda a criançada. Ali, naquelas piscinas barrentas, navegávamos nossos barcos de papel, “vivenciando” as mais emocionantes aventuras com personagens fantásticos do imaginário infantil. Em dias secos, a rua tornava-se arena de jogos, desde o futebol, disputadíssimo, entre os times dos de chinelos e dos descalços, até a raquete, cujas bolas arremessadas tinham como endereço certo sempre uma vidraça vizinha, fato que ocasionava a fuga rápida e geral de todos os “atletas”.
    Sem iluminação e de configuração geológica peculiar, raros eram os automóveis que se aventuravam por ela, o que nos deixava, à noite, num breu total, salvos, muitas vezes, pelo brilho da lua ou por algum motorista desavisado que por aí se arriscava. Nesses momentos, tínhamos, então, a luz rápida dos faróis do carro na escuridão da rua, flashes que nos permitiam ver os casais de namorados encostados aos muros que circundavam vastos lotes, emoldurados por várias árvores frutíferas, cujos aromas se espalhavam por todo o espaço. Outros fechavam terrenos baldios, por sobre os quais se vislumbravam muitos pés de mamonas que, aliados ao material bélico caseiramente confeccionado, o estilingue, era munição mais do que suficiente para as “guerras” travadas na rua e nas calçadas.
    Os folguedos infantis, como pular corda, brincar de roda, jogar amarelinha e as cadeiras tiradas para fora de casa, no final da tarde, transformavam os espaços da rua e das calçadas num lugar ímpar, onde o convívio acontecia diariamente. “Se essa rua, se essa rua fosse minha”, entoava a cantiga de roda, evocando esse fragmento da cidade, vão de passagem ladeado pelas calçadas da sociabilidade, conhecidas, também, em cada detalhe de suas frestas, nas rachaduras de seus muros, nos matinhos que cresciam por entre suas brechas. Pelo passo, desbravávamos esses sítios e com eles nos familiarizávamos, a ponto de, pensando neles hoje, correr o risco de romantizá-los, numa evocação saudosista.
    As cidades cresceram, “vítimas do progresso”, transfiguraram-se. As ruas ganharam asfalto, iluminação, acolhendo o automóvel, as calçadas perderam as brincadeiras infantis e as conversas de fim de tarde, passando a ser o limite do caminhar do pedestre. A cidade motorizou-se – a máquina, agora, impera.
    Na lembrança, porém, a cantiga de roda ainda ecoa e a cidade, hoje, aquela da infância, ganhou novos discursos, é dita de outra forma, constituiu-se em novos sentidos, em novos sujeitos. Na memória, o que foi pelo que está, no esquecimento do já-dito de um passado perdido na história, significado em novas formulações pela urgência da contemporaneidade.

© Gracinda Ferreira

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