Disse,
certa vez, Machado de Assis que basta uma simples trivialidade para se começar
uma crônica. Qualquer que seja esse acontecimento cotidiano, dele emerge um
texto pela sensibilidade do escritor.
Pouco sei de regras esportivas, apenas aprecio as competições sem nunca ter tido nem tino nem vontade para tal prática. Porém, naquela manhã de sábado, algo da ordem da língua no esporte me chamou a atenção. Estacionada na frente do colégio, ao qual me dirigia, uma velha Kombi fazia as vezes de uma barraca de consertos de panelas e de venda de apetrechos domésticos, distanciada um pouco da feira livre da qual era parte. Em sua traseira, lia-se o nome "Tchang's Futsal Vida Louca", logo abaixo da imagem de Nossa Senhora Aparecida, no contraponto da fé com a vida desregrada. Pronto. Bastou a leitura dessa estranha nomeação para a curiosidade aguçar, além do que, quem presidia essa quase barraca era uma mulher. Não havia ali nenhum homem que, supostamente, talvez, fizesse parte dessa equipe ou agremiação.
Estranhado o fato, segui em direção aos meus afazeres pedagógicos daquela manhã, esquecendo-me do que havia lido do lado de fora, quando da minha chegada. Porém, no momento de ir embora, lá estava, impassível, no mesmo lugar, a tal Kombi com esse nome diferente tatuado em sua lataria, que não deixava de me martelar o juízo em busca do seu significado. Era o próprio tatuado que se mostrava, apesar de débil, impávido em sua exibição de nome tão forte da ordem de um discurso esportivo. Era imponente, como o sol que se mostra no horizonte nas manhãs estivais mais quentes. Surgia. Aparecia. Apontava. Denunciava.
Durante todo o trajeto de volta para casa, a imagem daquela ordenação de letras tentava me dizer alguma coisa, me vasculhava o cérebro em busca de uma compreensão que me escapava: Tchang's (ainda com um genitivo inglês), o que é você? A sonoridade vinha forte e me lembrava o tchan, tchan, tchan, tchan beethoviano que se diz quando da iminência de um perigo qualquer ou de uma grande surpresa. No mais, eram apenas letras em arranjos distintos dos que conhecemos na língua portuguesa, mas que estavam lá, diziam em seus efeitos de sentido. O quê?
Em casa, fui ao computador buscar alguma coisa que satisfizesse a minha necessidade de compreensão. Evidentemente, que "Tchang's" não surgiu na minha busca, porém, acabei encontrando a palavra chinesa "Chang", que significa "livre". Gostei do que li e comecei a me entusiasmar pela pesquisa, pensando se aquele time de futebol de salão realmente existia ou se era apenas uma brincadeira de letras e sons numa sucata de rodas. Rolando a página da internet para baixo, encontrei um endereço de Facebook com o nome tal qual estampado na Kombi. Um simples clique fez abrir a caverna de Ali Babá e, então, apareceu toda a turma uniformizada, a qualificação da esquadra e o troféu.
Tratava-se de uma equipe da série inferior à principal, mas com jeito e atitudes de campeã ao exibir a taça conquistada na última competição. Pessoas simples compunham aquele grupo; da arquibancada aos atletas, notava-se a origem e a localização de tudo e de todos na periferia da grande cidade - Vila Maria.
Comecei, então, a olhar as fotos, a perceber os seus pormenores, as cores, as pessoas, a alegria estampada da vitória, os comentários dos aficionados quando, de repente, ao visualizar uma fotografia, algo me tocou sobremaneira. O treinador desse time, cujos atletas exibiam felizes o troféu conquistado, era paraplégico. Sim, o Mister era cadeirante e no cabeçalho da sua foto, ao lado de uma outra pessoa, lia-se "os melhores técnicos". Lembrei-me, nesse momento, do que disse uma pessoa querida, grande profissional do futsal, ao filosofar sobre essa modalidade esportiva. Dentre tudo o que costuma postular sobre sua paixão pelo futebol de salão, Massimilano Bellarte mencionou, certa vez, que "è soprendente quello che il futsal fa alle persone, ma ancor di più quello che le persone fanno con il futsal".
Liguei, então as pontas da fala do Mister filósofo italiano à condição física do treinador cadeirante brasileiro e percebi que, quando se tem uma paixão na vida, não existem obstáculos nem pedras no caminho que impeçam de vivê-la em sua plenitude. O futsal, para esse último profissional, é a força que liberta, que faz voar, que o deixa livre ("chang"), que o realiza como profissional esportivo, apesar de sua condição. E ele, por sua vez, traz ao futsal a energia e a demonstração de coragem que espelha a sua equipe, pois ambos, time e treinador, possuem características peculiares que os distinguem - a imobilidade, de um, e a simplicidade, do outro, nessa vida louca que os move. E no Tchang's que os une, num aparente sem sentido semântico, que faz todo sentido na dedicação a essa arte esportiva.
© Gracinda Ferreira
Pouco sei de regras esportivas, apenas aprecio as competições sem nunca ter tido nem tino nem vontade para tal prática. Porém, naquela manhã de sábado, algo da ordem da língua no esporte me chamou a atenção. Estacionada na frente do colégio, ao qual me dirigia, uma velha Kombi fazia as vezes de uma barraca de consertos de panelas e de venda de apetrechos domésticos, distanciada um pouco da feira livre da qual era parte. Em sua traseira, lia-se o nome "Tchang's Futsal Vida Louca", logo abaixo da imagem de Nossa Senhora Aparecida, no contraponto da fé com a vida desregrada. Pronto. Bastou a leitura dessa estranha nomeação para a curiosidade aguçar, além do que, quem presidia essa quase barraca era uma mulher. Não havia ali nenhum homem que, supostamente, talvez, fizesse parte dessa equipe ou agremiação.
Estranhado o fato, segui em direção aos meus afazeres pedagógicos daquela manhã, esquecendo-me do que havia lido do lado de fora, quando da minha chegada. Porém, no momento de ir embora, lá estava, impassível, no mesmo lugar, a tal Kombi com esse nome diferente tatuado em sua lataria, que não deixava de me martelar o juízo em busca do seu significado. Era o próprio tatuado que se mostrava, apesar de débil, impávido em sua exibição de nome tão forte da ordem de um discurso esportivo. Era imponente, como o sol que se mostra no horizonte nas manhãs estivais mais quentes. Surgia. Aparecia. Apontava. Denunciava.
Durante todo o trajeto de volta para casa, a imagem daquela ordenação de letras tentava me dizer alguma coisa, me vasculhava o cérebro em busca de uma compreensão que me escapava: Tchang's (ainda com um genitivo inglês), o que é você? A sonoridade vinha forte e me lembrava o tchan, tchan, tchan, tchan beethoviano que se diz quando da iminência de um perigo qualquer ou de uma grande surpresa. No mais, eram apenas letras em arranjos distintos dos que conhecemos na língua portuguesa, mas que estavam lá, diziam em seus efeitos de sentido. O quê?
Em casa, fui ao computador buscar alguma coisa que satisfizesse a minha necessidade de compreensão. Evidentemente, que "Tchang's" não surgiu na minha busca, porém, acabei encontrando a palavra chinesa "Chang", que significa "livre". Gostei do que li e comecei a me entusiasmar pela pesquisa, pensando se aquele time de futebol de salão realmente existia ou se era apenas uma brincadeira de letras e sons numa sucata de rodas. Rolando a página da internet para baixo, encontrei um endereço de Facebook com o nome tal qual estampado na Kombi. Um simples clique fez abrir a caverna de Ali Babá e, então, apareceu toda a turma uniformizada, a qualificação da esquadra e o troféu.
Tratava-se de uma equipe da série inferior à principal, mas com jeito e atitudes de campeã ao exibir a taça conquistada na última competição. Pessoas simples compunham aquele grupo; da arquibancada aos atletas, notava-se a origem e a localização de tudo e de todos na periferia da grande cidade - Vila Maria.
Comecei, então, a olhar as fotos, a perceber os seus pormenores, as cores, as pessoas, a alegria estampada da vitória, os comentários dos aficionados quando, de repente, ao visualizar uma fotografia, algo me tocou sobremaneira. O treinador desse time, cujos atletas exibiam felizes o troféu conquistado, era paraplégico. Sim, o Mister era cadeirante e no cabeçalho da sua foto, ao lado de uma outra pessoa, lia-se "os melhores técnicos". Lembrei-me, nesse momento, do que disse uma pessoa querida, grande profissional do futsal, ao filosofar sobre essa modalidade esportiva. Dentre tudo o que costuma postular sobre sua paixão pelo futebol de salão, Massimilano Bellarte mencionou, certa vez, que "è soprendente quello che il futsal fa alle persone, ma ancor di più quello che le persone fanno con il futsal".
Liguei, então as pontas da fala do Mister filósofo italiano à condição física do treinador cadeirante brasileiro e percebi que, quando se tem uma paixão na vida, não existem obstáculos nem pedras no caminho que impeçam de vivê-la em sua plenitude. O futsal, para esse último profissional, é a força que liberta, que faz voar, que o deixa livre ("chang"), que o realiza como profissional esportivo, apesar de sua condição. E ele, por sua vez, traz ao futsal a energia e a demonstração de coragem que espelha a sua equipe, pois ambos, time e treinador, possuem características peculiares que os distinguem - a imobilidade, de um, e a simplicidade, do outro, nessa vida louca que os move. E no Tchang's que os une, num aparente sem sentido semântico, que faz todo sentido na dedicação a essa arte esportiva.
© Gracinda Ferreira

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