Encantada
com as primeiras letras, logo resolvi o que seria na vida. A leitura daqueles
ditongos e encontros consonantais, combinados entre si, fazendo sentido quando
meus olhos os decifravam, era como o deslumbramento de um cego que vê o mundo
pela primeira vez e de um surdo que ouve sua própria voz desconhecida. A descoberta
do mundo da leitura e da escrita foi, para mim, a abertura ao universo mágico
do conhecimento, esse desconhecido que está sempre aí pronto a nos desafiar.
Resolvi, então, ser encantadora de pessoas através das letras e, nesse desafio
a que me propus, o percurso foi longo e árduo, da universidade aos concursos,
da aposentadoria à pós-graduação. Porém, nada me deteve, pois ser professor é
constitutivo, faz parte, está lá, é ! E, assim, todos os dias, lá estava eu, às
7 horas da manhã, dizendo bom dia com um sorriso no rosto aos que adentravam a
sala de aula para mais uma jornada diária. Sei que jamais consegui falar para
todos, que o meu dizer atingia alguns dentre aqueles muitos, mas isso não
importava, pois esses poucos que me ouviam faziam para mim toda a diferença.
Era para eles que minha voz, muitas vezes débil, rouca ou ausente (sim, pois,
mesmo afônica, no meu silêncio, eu falava e eles me compreendiam) transmitia os
ensinamentos do dia. E era para esses poucos que as cantigas medievais faziam sentido,
numa língua provençal desconhecida, pela pena de D. Dinis exclamando "Ai
Deus, e u é?" Era para eles que Gonçalves Dias cantava o seu exílio e
Castro Alves denunciava os grilhões nos porões das naus estrangeiras. Cabia a
esses poucos decifrarem o enigma da cigana dissimulada de olhos oblíquos, de
andarem pelos sertões do Rosa e do Ramos e de buscarem o conhecimento de si e
do mundo pelas epifanias de Clarice Lispector. Era para esses poucos que
Fernando Pessoa se desdobrava em seus múltiplos "eus" e por quem
Drummond suportava nos ombros o mundo. Era para eles que José vinha, a cada
ano, dizer que a festa acabara, recomeçando sempre com um "E, agora?
" E, agora, há que caminhar, pois a estrada do conhecimento é vasta, longa
e para o caminheiro "no hay camino, se hace camino al andar".
Portanto, nesse infinito trajeto, no movimento de ensinar e aprender, vamos
passando além e nos tornando mestres, como bem nos disse Rubem Alves. Sei que
sairei incompleta deste mundo, mas levarei comigo a certeza de que o pouco que
ensinei e o muito que aprendi fizeram toda a diferença na pessoa que me tornei.
Feliz Dia do Professor!
©
Gracinda Ferreira

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