Pensando
em como as coisas acontecem na vida da gente, de forma assombrosamente
inesperada, vi-me diante de algo inexplicável. Era domingo, já no seu final de
tarde, de horário de verão, aquela parte do dia em que já não há tanta
claridade do sol, porém a noite ainda se esboça tímida. Estava hospedada na
casa de uma senhora, num bairro muito bucólico, na cidade de Campinas, na qual,
por alguma razão do destino ou da Divina Providência, vim parar para retomar
meus estudos na universidade.
Descia
eu pela rua onde se localiza essa tal casa, quando, de repente, meus olhos
depararam-se com algo brilhante que se fazia notar, ao longe, no chão. Cheguei
mais perto e quase que, por um descuido, piso em cima daquilo que luzia no
asfalto. Era um carrinho de brinquedo, daqueles pequeninos, com os quais os
garotinhos gostam de brincar.
Peguei o carrinho, olhei à minha volta, não havia ninguém. Fui, então, mais ou menos sem rumo e sem direção, pois resolvera caminhar um pouco pelo bairro para respirar ar puro e arrefecer, de alguma forma, o terrível calor que fazia naquela tarde, quase noite.
Peguei o carrinho, olhei à minha volta, não havia ninguém. Fui, então, mais ou menos sem rumo e sem direção, pois resolvera caminhar um pouco pelo bairro para respirar ar puro e arrefecer, de alguma forma, o terrível calor que fazia naquela tarde, quase noite.
Segui
em frente e, sem qualquer tipo de escolha, virei à direita na primeira rua que
me pareceu simpática e caminhei em direção a uma estrada famosa da cidade.
A
rua, por onde andava eu agora, apresentava certo declive, portanto, estava
fácil produzir minha tranqüila caminhada nessa suave ladeira. Foi quando, de
repente, ao longe, vejo dois vultos saírem de uma travessa. Como sou míope e
com a difusa luz dos postes projetando-se no asfalto, foi difícil identificar
as pessoas. Diminuí o passo, pois nunca se sabe o que podemos encontrar ao nos
aproximarmos, ainda mais num bairro tão ermo e bucólico.
A esses dois vultos, somou-se mais um, que
julguei ser o de uma criança, pela pequenez que se podia vislumbrar em relação
aos outros dois. Fui me aproximando, agora já sem o receio que, em princípio,
me invadira, e vi que se tratava de um casal com um garotinho muito loiro,
cabelo cortado à tigela, como fazem os índios com os seus curumins.
Vinha
eu com as chaves de casa na mão esquerda e, na direita, carregava o carrinho
com o qual eu, distraidamente, brincava, fazendo mover suas rodinhas. Foi
quando o garotinho, pulando nos degraus da calçada, olhou para mim e disse, com
um lindo sorriso:
-
Oi!
-
Oi, respondi, chegando mais perto dele.
-
Eu quero ver o arco-íris. Não tem arco-íris.
-
Hoje não tem, respondeu-lhe sua mãe.
Nesse
momento percebi que havia na minha mão um carrinho e, diante de mim, um lindo
garotinho, inocente, querendo um arco-íris. Imediatamente, perguntei-lhe se
queria um carrinho.
-
Eu quero, respondeu ele.
-
Então toma, é seu.
-
Como se diz? - chamou-lhe a atenção a
mãe.
O
menino não falou nada, apenas olhou-me e sorriu, lindamente.
-
O que você precisa dizer? – insistiu sua mãe.
-
Obrigado, tia!
-
De nada, respondi.
-
Obrigado, moça, disse-me seu pai.
-
De nada, tornei a responder e segui meu caminho ladeira abaixo, a passos
lentos, enquanto os três viravam à esquerda na travessa que ia ficando às minhas
costas, à medida que eu avançava meus passos.
Então,
novamente, o garotinho falou:
-
Tia, cadê o arco-íris?
-
Hoje não tem, respondi, não está chovendo.
-
Tchau, tia!
-
Tchau, respondi-lhe eu.
-
A gente se vê amanhã!
-
Tchau!
E
segui em frente, não sabia bem para onde. Dei-me conta de onde estava, quando
li a placa da estrada que surgia clara para os meus olhos – Estrada da Rhodia.
Senti
que precisava voltar à casa, pois a noite descera rapidamente, trazendo um
vento fresco que amenizava o calor intenso que fizera por todo aquele dia.
Enquanto
voltava para casa, ia pelo caminho pensando no que acabara de me acontecer.
Aquele encontro do carrinho com a criança, um menino, não poderia ser apenas
fortuito. Ele tinha que possuir um significado. Aquilo não poderia ser somente
uma mera coincidência, pois os fios dos acontecimentos estavam perfeitamente
ligados, numa conexão mais do que lógica. Era como se o carrinho caído no
asfalto, cujo dono apagou-se ao desaparecer, tivesse que, de alguma forma, ser
entregue a outra criança, com a minha mediação, que, com toda sua beleza,
pureza e espontaneidade, simbolizasse algo mais para mim, neste momento da vida
em que resolvi fazer a travessia do costumeiramente monótono para a luz de
objetivos e sonhos que sempre tive e que, até agora, nunca me foram possíveis
realizar.
A
imagem do encontro do carrinho e do menino me agradecendo o brinquedo não me
saía da lembrança. Sei que isto não está apenas na mão do acaso, há, por trás,
um significado maior que ainda não consegui identificar. Porém, percebo uma
grande simbologia envolvida nisso tudo, quando me lembro do carrinho,
remetendo-me a movimento, e da criança, ao nascimento, uma vida nova começando
neste mundo. Vou por aí e chego, novamente, ao atual momento de vida que
experimento, que me deixa atônita e, de vez em quando, me dá arrepios, pois,
diante do novo, todos nós temos pavores. Sinto-me ressurgindo das cinzas, como
uma grandiosa Fênix, para experimentar a vida, que se esvaneceu pelo tempo.
E
aqui estou, movimentando-me para, de alguma forma, quando chegar a hora, sair
deste mundo com dignidade e com a sensação de missão cumprida.
© Gracinda Ferreira

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