D.
Maria já era avó de netos crescidos, a quem ajudou a criar, mas, que agora, já não
necessitavam mais de seus cuidados. Então, para preencher o tempo ocioso entre
as tarefas domésticas, ela voltou-se para a televisão. Passou a assistir de
tudo um pouco, enriquecendo seu entretenimento com tv a cabo que sua filha
mandara instalar.
Dos
canais dessa tv paga, ela gostava muito de ver os documentários do Discovery
Channel, pois acrescentavam muito conhecimento à sua vida de avó, podendo, de
vez em quando, mostrar-se atualizada e em pé de igualdade para discutir com
seus netos sobre os mais variados assuntos.
D.
Maria tinha uma cunhada que vivia com ela, de nome Lúcia, dois anos mais velha
e com quem implicava constantemente. Lúcia não podia fazer nada, que tudo era
errado, segundo a ótica de D. Maria. Lúcia, por fim, já não se incomodava mais
com as impertinências dela, pois sabia que era esse o seu gênio e fora assim
por 75 anos, não mudaria agora depois de velha.
Quando
os programas de culinária iam ao ar, D. Maria avidamente empunhava uma caneta e
uma folha de papel e lançava-se a copiar tudo, que ia se perdendo à medida em
que a apresentadora preparava os quitutes. Ficava brava, dizendo que o programa
era mal feito e que não davam tempo de se copiarem as receitas. Então, pedia
para sua filha pegar na internet as receitas copiadas pela metade, porque ela
tinha a intenção de prepará-las no domingo. Mas, todas ficavam sempre na
intenção, pois o menu dominical repetia-se semanalmente: macarrão com carne
assada.
Fato
curioso para ser mencionado é que D. Maria não só assistia aos seus programas
televisivos, que iam das telenovelas mais chulas possíveis até os documentários
médicos exibidos na tv por assinatura, interagindo com eles, ou seja, ela
conversava com os narradores, com os apresentadores e mandava os atores fazerem
isto ou aquilo. Era hilário ficar de fora vendo isso e Lúcia observava sempre
atenta esse comportamento da cunhada, pois se divertia muito com o que ela
dizia
-
Esse cara é burro! Será que ele não vê que a mulher dele não presta? gritava
ela diante da novela.
-
Maria, não adianta você ficar nervosa, o ator não vai escutar o que você está
dizendo. Isso tudo já foi gravado e ele não vai ouvir nada. Presta atenção em
vez de ficar falando o tempo todo
-
Eu sei, mas ele é mesmo burro!
Nada
fazia efeito, os esforços eram inúteis. Então, as pessoas deixavam-na vociferar
diante da tv e todos acabavam rindo.
Numa
noite fria de inverno, D. Maria foi para a sala, ligou a televisão e estava
sozinha assistindo a um documentário sobre a vida de Cristo e seus apóstolos,
quando Lúcia resolveu juntar-se a ela. Estavam as duas atentas ao discurso do
narrador, que discorria sobre os passos de Cristo até a sua morte na cruz e de
como o cristianismo espalhou-se por todo o mundo e assim por diante. Num dado
momento, Lúcia foi até a cozinha pegar um copo d’água. Quando retornou à sala,
D. Maria virou-se para ela e disse:
-
Lúcia, você sabia que o verdadeiro nome de Judas era Pedro?
-
Quê?
-
É, era Pedro, o homem do documentário falou!
-
Nossa, Maria, você está ficando doida. Judas era Judas!
-
Não senhora, era Pedro, o homem acabou de falar, pois não escutei?
-
Meu Deus!
Era
melhor concordar para evitar problemas, porém, Lúcia não aguentou e começou a
rir, ria muito e não conseguia parar, para piorar ainda mais a indignação de D.
Maria.
Na
sequência, o canal iniciou um novo documentário, agora sobre a vida de
Cleópatra. E lá estava novamente D. Maria, ávida por saber tudo sobre a vida da
rainha do Egito. Lúcia continuou no sofá, ao lado dela e puseram-se as duas a
ouvir e ver o programa. O narrador discorreu por quase uma hora todos os fatos
da vida da soberana e, por fim, chegou ao momento da morte dela.
A
tv exibia uma criada de Cleópatra trazendo-lhe uma cesta repleta de figos,
debaixo dos quais estava a cobra que iria lhe picar. A criada depositou a cesta
no chão, ao lado da cama de Cleópatra e saiu. A rainha, então, procurou o
réptil entre os figos, colocou-a em seu colo e o resto da história todo mundo
sabe. Porém, o que ninguém sabe é que, enquanto Cleópatra estava morrendo, D.
Maria vira-se para a cunhada e exclama:
-
Ah, mas ela nem comeu os figos...!
©
Gracinda Ferreira

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