quinta-feira, 17 de novembro de 2022

A AVÓ



D. Maria já era avó de netos crescidos, a quem ajudou a criar, mas, que agora, já não necessitavam mais de seus cuidados. Então, para preencher o tempo ocioso entre as tarefas domésticas, ela voltou-se para a televisão. Passou a assistir de tudo um pouco, enriquecendo seu entretenimento com tv a cabo que sua filha mandara instalar.
Dos canais dessa tv paga, ela gostava muito de ver os documentários do Discovery Channel, pois acrescentavam muito conhecimento à sua vida de avó, podendo, de vez em quando, mostrar-se atualizada e em pé de igualdade para discutir com seus netos sobre os mais variados assuntos.
D. Maria tinha uma cunhada que vivia com ela, de nome Lúcia, dois anos mais velha e com quem implicava constantemente. Lúcia não podia fazer nada, que tudo era errado, segundo a ótica de D. Maria. Lúcia, por fim, já não se incomodava mais com as impertinências dela, pois sabia que era esse o seu gênio e fora assim por 75 anos, não mudaria agora depois de velha.
Quando os programas de culinária iam ao ar, D. Maria avidamente empunhava uma caneta e uma folha de papel e lançava-se a copiar tudo, que ia se perdendo à medida em que a apresentadora preparava os quitutes. Ficava brava, dizendo que o programa era mal feito e que não davam tempo de se copiarem as receitas. Então, pedia para sua filha pegar na internet as receitas copiadas pela metade, porque ela tinha a intenção de prepará-las no domingo. Mas, todas ficavam sempre na intenção, pois o menu dominical repetia-se semanalmente: macarrão com carne assada.
Fato curioso para ser mencionado é que D. Maria não só assistia aos seus programas televisivos, que iam das telenovelas mais chulas possíveis até os documentários médicos exibidos na tv por assinatura, interagindo com eles, ou seja, ela conversava com os narradores, com os apresentadores e mandava os atores fazerem isto ou aquilo. Era hilário ficar de fora vendo isso e Lúcia observava sempre atenta esse comportamento da cunhada, pois se divertia muito com o que ela dizia
- Esse cara é burro! Será que ele não vê que a mulher dele não presta? gritava ela diante da novela.
- Maria, não adianta você ficar nervosa, o ator não vai escutar o que você está dizendo. Isso tudo já foi gravado e ele não vai ouvir nada. Presta atenção em vez de ficar falando o tempo todo
- Eu sei, mas ele é mesmo burro!
Nada fazia efeito, os esforços eram inúteis. Então, as pessoas deixavam-na vociferar diante da tv e todos acabavam rindo.
Numa noite fria de inverno, D. Maria foi para a sala, ligou a televisão e estava sozinha assistindo a um documentário sobre a vida de Cristo e seus apóstolos, quando Lúcia resolveu juntar-se a ela. Estavam as duas atentas ao discurso do narrador, que discorria sobre os passos de Cristo até a sua morte na cruz e de como o cristianismo espalhou-se por todo o mundo e assim por diante. Num dado momento, Lúcia foi até a cozinha pegar um copo d’água. Quando retornou à sala, D. Maria virou-se para ela e disse:
- Lúcia, você sabia que o verdadeiro nome de Judas era Pedro?
- Quê?
- É, era Pedro, o homem do documentário falou!
- Nossa, Maria, você está ficando doida. Judas era Judas!
- Não senhora, era Pedro, o homem acabou de falar, pois não escutei?
- Meu Deus!
Era melhor concordar para evitar problemas, porém, Lúcia não aguentou e começou a rir, ria muito e não conseguia parar, para piorar ainda mais a indignação de D. Maria.
Na sequência, o canal iniciou um novo documentário, agora sobre a vida de Cleópatra. E lá estava novamente D. Maria, ávida por saber tudo sobre a vida da rainha do Egito. Lúcia continuou no sofá, ao lado dela e puseram-se as duas a ouvir e ver o programa. O narrador discorreu por quase uma hora todos os fatos da vida da soberana e, por fim, chegou ao momento da morte dela.
A tv exibia uma criada de Cleópatra trazendo-lhe uma cesta repleta de figos, debaixo dos quais estava a cobra que iria lhe picar. A criada depositou a cesta no chão, ao lado da cama de Cleópatra e saiu. A rainha, então, procurou o réptil entre os figos, colocou-a em seu colo e o resto da história todo mundo sabe. Porém, o que ninguém sabe é que, enquanto Cleópatra estava morrendo, D. Maria vira-se para a cunhada e exclama:
- Ah, mas ela nem comeu os figos...!
 

© Gracinda Ferreira
 

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